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O Brasil na perspectiva ornitológica

Imagem: Pixabay
[...] Hoje eu vou falar de patos, essas simpáticas aves da família Anatidae. Fui ao Google para me ilustrar sobre o assunto e aprendi que a família de patos é enorme. Há o pato-mudo, o pato corredor, o pato-ferrão, o pato papão, o pato-caipira e o pato da Fiesp. E assim por diante. Ah, sim! Os marrecos também fazem parte da família. E temos aí a marreca-cricri, o marreco-gritalhão, o marrecão, o marreco-pompom e o marreco de bico-amarelo.

Confesso que fiquei interessado pelo pato-mudo. O pato-mudo é assim chamado porque ele não emite sons altos; o macho faz um som semelhante a um assopro; e a fêmea, algo como um assobio discreto.

E fácil criar patos, e eles se reproduzem com grande facilidade. No Brasil, os patos são milhões e milhões, embora ultimamente, informam-me, talvez por causa do clima, da crise econômica, da reforma da Previdência ou do desemprego, registra-se uma drástica diminuição na população de patos.

O coletivo de patos [...] é bando ou patacoada, como sugerem alguns.

Os patos são facilmente domesticados e é possível conduzir o bando pata aqui, pata acolá, porque o pato sempre vem para ver o que é que há, como diz a letra de Vinícius de Moraes.

Assim, para amestrar e docilizar o pato, especialmente o pato-mudo, muitos criadores colocam nos aposentos do bando televisores e rádios, permanentemente sintonizados na Globo e na CBN. E, para melhor acomodá-los, forram o ambiente onde vivem, com jornais e revistas criteriosamente selecionados.

Os criadores chegaram à conclusão que, sob o efeito de certas vozes, masculinas e femininas, de apresentadores e comentaristas do rádio e da televisão, os patos reproduzem-se com mais velocidade.

Quanto à dieta dos patos, algumas informações de tratadores referem-se à adoção exitosa – imagine, [...] – de alfafa, que é a comida específica para muares.

Mas vamos ao que interessa. Embora a minha curiosidade sobre o pato­mudo, eu quero mesmo falar é do pato da Fiesp, um pato que se notabilizou por sua ativa performance no primeiro semestre do ano passado em algumas capitais brasileiras, especialmente na Capital Federal e em São Paulo, hoje o maior centro criador de patos e referência mundial na criação da ave. Tanto assim que alguns criadores russos já estão importando o pato da Fiesp, crentes que possam reproduzi-lo em Moscou e Petersburgo, com o mesmo resultado do Brasil.

Segundo o Google me informa, o pato da Fiesp, no entanto, tem lá também as suas idiossincrasias.

Por exemplo, não gosta de nada que seja imposto. Tem horror ao imposto. Chegou mesmo mesmo até a criar um medidor para espalhar a rejeição a tudo o que é imposto. É um pato liberal, vê-se com clareza.

Outra coisa que as pesquisas do Google ensinaram-me é que, frequentemente, os patos líderes trapaceiam a pataquada. Prometem levá­los a descansar em verdes prados, a conduzi-los a águas mansas e refrescantes, a reconfortar suas almas, a protegê-los de todo o mal, mas acabam por pastoreá­ los por ínvios e tenebrosos caminhos.

Verbi gratia.

O rei dos patos-Fiesp prometeu ao bando que, se a marreca-cricri fosse apeada do poleiro, haveria abundância, jorrariam leite e mel, e que nada mais seria imposto à patolândia. Houve mesmo um grão-pato pernambucano que prometeu o milagre instantâneo da multiplicação dos pães, dos peixes, do vinho e dos tecidos de tafetá ou de morim se a referida madame fosse afastada.

Quem sabe seja por isso, porque tudo o que é imposto aumenta; porque diminui a ocupação dos patos; porque se reduz a ração do bando, e muitos se recusam a consumir alfafa como cardápio alternativo; porque os patos mais velhos estão sendo ameaçados de nunca mais poderem descansar; ou seja, porque as tarefas dos patos estejam sendo terceirizadas para os urubus, corvos, quero-queros, a verdade é que míngua, dissolve-se o número dos anatídeos a seguir os seus líderes. Os patos estão saindo do bando.

Parece que as generosas contribuições financeiras dos irmãos Koch – ou do brasileiro mais rico do país e 19° mais rico do Planeta – não estão dando mais conta de mobilizar os patinhos e os patões que haviam proclamado a República do Vão Livre da Fiesp, do Masp, ou o Consulado do Pato Fiesp.

Concluo esse mergulho no mundo dos patos, marrecos e gansos com duplo e contraditório sentimento, um sentimento gramsciano: pessimista e otimista.

Pessimista por ver quanto é poderosa a aliança mídia/grande capital, tão poderosa a ponto de fazer milhões de brasileiros bem-intencionados vestirem a camisa da CBF e marcharem pelas ruas, defendendo, em última instância, as teses de seus opressores.

Otimista por ver os brasileiros que foram feitos de patos despertarem e, em movimento contrário, retomarem as ruas contra a entrega do País ao grande capital global, especialmente ao capital financeiro; contra a destruição da Previdência Social e da legislação trabalhista; contra a terceirização que instaura no País a escravidão remunerada; contra a destruição da nossa indústria e o extermínio dos empregos.

O Brasil desperta. Está na hora de este Senado também acordar e começar a pôr um freio nessas loucuras inspiradas nas putrefatas ideias do neoliberalismo.

Não somos o País dos patos. Não somos patos. Não há de ser o presidente de uma entidade empresarial-industrial, que se distingue pelo servilismo aos que destroem as indústrias, o emprego, o consumo e a soberania, que fará do Brasil o País dos patos da Fiesp.

Os patos abandonam o bando [...] e o Brasil começa a acordar para ideias libertárias de desenvolvimento, de emprego e de soberania.

Senador Roberto Requião  (PMDB-PR). Discurso proferido no Plenário do Senado em 05/04/2017. Título meu.


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