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O trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo

Participei da 37ª semana de geografia (SEMAGEO/UFSC) na mesa “DISCUTINDO O TRABALHO DO GEÓGRAFO NO “TERCEIRO MUNDO”.
Foto: Caligeo/UFSC

37ª Semana Acadêmica de Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina
Pelo convite realizado faço meu agradecimento ao professor Orlando Ferretti, pela lembrança de meu nome, agradecendo também ao Caligeo e a toda comissão organizadora deste evento.
Cumprimento também os colegas dessa mesa e inicio dizendo que o tema proposto “DISCUTINDO O TRABALHO DO GEÓGRAFO NO “TERCEIRO MUNDO”. É para mim bastante provocativo.
Eu quero iniciar brincando com o termo “Terceiro Mundo” e dizer que se não for bem explicado alguns dos meus alunos podem tirar conclusões equivocadas. Ou seja, é preciso entender de que terceiro mundo estão dizendo?
Tenho o hábito de me considerar um professor que vive no mundo da Lua. Viver no mundo da Lua para mim é viver aqui, na Terra que é, como todos sabem, o único mundo da Lua com “L” maiúsculo.
Mesmo buscando outra referência como o Sol, o terceiro mundo continua sendo aqui, a Terra. Pois é ela o terceiro planeta distante do Sol.
Mas não se preocupem pois não é assim que ensino às crianças o que é o Terceiro Mundo.
É no viés geopolítico, ou econômico que o conceito Terceiro Mundo pode ser melhor explorado pela geografia. Este já foi amplamente discutido e rediscutido e dentre vários registros temos o livro intitulado “O Trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo” do professor Milton Santos, onde ele, ao meu ver, nos ajuda através da análise geográfica e não puramente econômica, a compreender algumas das características do chamado Terceiro Mundo.
Sobre a temática da mesa DISCUTINDO O TRABALHO DO GEÓGRAFO NO “TERCEIRO MUNDO, sentirei um pouco menos constrangido se vocês me permitirem falar como professor de geografia.
E como professor de geografia preparei essa fala pensando em futuros professores estudantes de geografia.
Arriscando aqui, dialogar sobre o trabalho do geógrafo professor no terceiro mundo, deixando sempre a dúvida sobre de que terceiro mundo eu, afinal, estou falando?
Uma das possibilidades de atuação do geógrafo, do geógrafo licenciado é no magistério. É dessa atuação que pretendo aqui falar, ou seja, do geógrafo professor.
Sou professor de geografia da rede pública de ensino de Florianópolis e é desse lugar que compartilho aqui algumas leituras do que estudo, pesquiso e vivencio.
Não é tarefa fácil ser professor no Terceiro Mundo, não é tarefa fácil ser professor de escola pública nesse Terceiro Mundo.
Para melhor compreender esse papel é preciso pensar sobre os objetivos da geografia na educação básica. Uma pergunta que deveria ser recorrente no curso de geografia é: Se não houvesse geografia no ensino fundamental, que falta faria?
Respondendo sobre qual é a função da geografia na educação básica Milton Santos respondeu
“Eu creio que o ensino da geografia tem como função central explicar o país e produzir cidadãos a partir desse conhecimento.”
A “simplicidade” de sua resposta mostra o quão complexo é ser professor dessa disciplina escolar. Poderíamos dizer que o ensino da geografia está dentro de uma ´simplicidade complexa`.
Contudo sua fala deixa-nos pistas que podemos usar para tentar compreender essa função do ensino da geografia.
O professor Milton Santos falou em ensino da geografia e não ensino de geografia.
A leitura que faço é a de que o ensino de geografia está muito mais ligado aos conteúdos dessa disciplina escolar e que o ensino da geografia está mais próxima da compreensão da ciência geográfica. O que venho estudando e propondo para o ensino fundamental é o ensino com geografia.
A preposição comé uma partícula que estabelece relação de dependência. Neste caso arrisco a afirmar uma relação de cumplicidade. Cumplicidade da ciência geográfica com o ensino da geografia escolar.
A geografia, nesse sentido, e nas palavras de Ana Fani, “aparece como possibilidade de pensar o mundo real e a sociedade num mundo fragmentado, apesar de global”.
Ou mesmo nas palavras de Helena Callai que diz “Na Geografia, estudamos o mundo por meio da análise geográfica, através do desenvolvimento do pensamento espacial”.
Considerando que o desafio do professor é refletir sobre “quais capacidades são exigidas para se fazer a análise geográfica” (CALLAI, 2015), a preocupação do que ensinar em geografia (conteúdo) se torna uma preocupação tão legítima como a de como ensinar (metodologia).
Deste modo, o papel do professor de geografia no terceiro mundo vai se desenhando sendo necessário compreender nessa fórmula o papel social da escola. A escola deve ser capaz de contribuir para mudanças sociais formando os alunos para serem cidadãos em uma sociedade democrática. Compartilho do pensamento de Henry Giroux para quem a principal função da escola é a emancipação dos sujeitos.



Ainda sobre a escola, devo insistir numa observação que há muito venho defendendo. A de que o professor deve ser preparado para dialogar não com uma comunidade escolar e sim com uma diversidade escolar.
Existe quase que um mantra sobre a importância de se valorizar a comunidade escolar em benefício do aprendizado dos alunos. Insisto que melhores aprendizagens teriam nossos alunos se houvesse a compreensão de que o que temos na escola é uma enorme e rica diversidade, onde o grande desafio é buscar no respeito à diversidade uma orientação pedagógica para a criação de uma comunidade, que ainda não existe e deve ser construída, valorizando o que nela há em comum.
Este é um desafio e tanto para o professor de geografia (mas não só desde) que, ao meu ver, poderia com a geografia compreender melhor essa diversidade.
A atuação do professor de geografia merece atenção em três aspectos que poderemos discutir adiante e que aqui apenas pontuo:
1.      Sua formação inicial
2.      Sua formação em serviço (continuada)
3.      Sua relação entre geografia (acadêmica e escolar)
O fortalecimento destes percursos formativos favorece a relação entre o professor e sua ciência base e com isso poderemos ter uma melhor compreensão do papel da geografia escolar no ensino fundamental. Respondendo definitivamente à questão: se não houvesse geografia no ensino fundamental que falta faria?
Nessa escola cuja emancipação dos alunos é o objetivo maior o Trabalho do professor é fundamental.
Para se ter uma dimensão da importância do trabalho do geógrafo professor no terceiro mundo no campo da educação escolar expresso-me nas palavras de Carlos Augusto Figueiredo Monteiro (1985), relato em aula inaugural no Departamento de Geografia da USP onde ele fala da relação juventude-velhice, mas onde percebo a descrição de três tipos de professores que encontramos também nas escolas básicas:
“ Creio que na gradação infinita em que se pode colocar a relação “juventude-velhice” há três padrões básicos: a) uns velhos, pouco evoluídos disfarçam o peso da passagem dos anos em estado de fascinação pelos jovens, esforçando-se, mesmo ao preço do ridículo, em permanente louvação a eles; b) outros, em nome de uma racionalidade exacerbada e de um conhecimento acumulado, distanciam-se dos jovens, que só lhes transmite irritação e reprovação; finalmente outros, eternos insatisfeitos com a experiência e o saber adquirido, ajudados por uma saúde que lhes mantém a memória, que não lhes exterminou a lembrança do ser jovem, o sentimento lúdico, e, felizardos, conseguem guardar até vestígios da “criança” que foram um dia. Para estes o jovem não é irritação nem louvação permanente. É alguém a quem se contraria ou a quem se apóia conforme a circunstância; a quem se alterna carinho e firmeza, alguém com quem se mantém intercâmbio: a quem se ensina, mas também com quem se aprende. Aliado, as vezes cúmplices. ” Depoimento Reflexivo. Carlos Augusto Figueiredo Monteiro.

15/06/2016

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