História urbana paulista

territórios e cidadesUm grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) realizou uma longa série de estudos sobre os aspectos da modernidade relacionados à perspectiva da produção material e das representações culturais que determinaram, ao longo de um século, a formação e a expansão das cidades paulistas.

Os estudos – feitos no campo da história social, da cultura, da cidade e da arquitetura – têm seus resultados apresentados no livro Território e cidades – Projetos e representações, 1870-1970, lançado com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

A obra foi organizada por Eduardo Romero de Oliveira, professor da Unesp em Rosana (SP), e Cristina de Campos e Maria Lucia Caira Gitahy, ambas professoras da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Os artigos são fruto de pesquisas de mestrado e doutorado orientadas nas duas universidades.

De acordo com Oliveira, a obra faz uma extensa reflexão sobre os principais desafios impostos à historiografia do espaço brasileiro na atualidade.

“São dois conjuntos de artigos. O primeiro conjunto tem foco no território enquanto a dimensão em que se articula a produção material, a população e a cidade. O segundo conjunto trata das diferentes representações culturais que a cidade suscita e as relações na esfera da vivência urbana”, disse à Agência FAPESP.

O primeiro conjunto se refere em especial à capital paulista, do ponto de vista das questões urbanas e das questões do território. O segundo conjunto tem foco nas cidades do interior do estado.

“Os textos abordam os projetos de formação das cidades e sua expansão pelo território, destacando também a representação das cidades no discurso e no imaginário. O livro, portanto, trata tanto do processo de implantação da cidade como da imagem desenvolvida em torno desse processo”, explicou.

O livro mostra como a expansão das cidades no território se deu em função de um contexto histórico que incluía a expansão da produtividade agrícola e rentabilidade econômica das terras, o adensamento dos núcleos urbanos e sua regulamentação e a mobilização da mão de obra e a migração humana.

“As ferrovias, que desde o século 19 tinham sua existência condicionada à expansão da produção do café – com investimento privado –, passaram a acelerar o desenvolvimento das cidades, viabilizando um estágio de desenvolvimento urbano mais avançado. No século 20, foram criadas com objetivo estratégico de ocupação territorial”, disse Oliveira.

A obra reflete sobre as representações culturais que a cidade suscita, apresentando as visões da modernidade urbana tanto a partir da perspectiva das classes subalternas como da percepção dos profissionais do urbanismo.

“São abordados aspectos da formação desses profissionais, suas propostas modernas de ação, visando à habitação, às escolas e à própria urbanização. É possível perceber que, em vários aspectos, o imaginário da modernidade está vinculado à expansão urbana”, afirmou.

Cidades do interior

De acordo com Oliveira, um dos aspectos diferenciados do livro é que ele aprofunda os estudos sobre as cidades do interior paulista. “Os estudos existentes sobre a capital têm avançado bastante, mas não há uma produção sistemática de trabalhos sobre o interior, que têm ficado dispersos. Tentamos lançar a luz sobre essa produção” disse.

Outro foco da obra consistiu em estabelecer uma correlação entre os projetos de formação das cidades do interior e a própria formação urbana da capital.

“Se há uma carência de estudos sobre as cidades do interior, a escassez é ainda maior em relação aos estudos comparativos. Procuramos preencher essa lacuna estabelecendo a correlação entre a formação urbana do interior e da capital”, disse.

Um exemplo relevante dessa correlação está em estudo sobre a cidade de Panorama, que teve seu planejamento urbano realizado por Francisco Prestes Maia (1896-1965).

“Na década de 1940, ele realizou o loteamento e planejamento da cidade, com a abertura de largas avenidas e uma planta urbana que mostra evidente correlação com o que seria feito alguns anos depois na capital paulista”, disse.

A partir das correlações estabelecidas pelos estudos, foi possível perceber que a expansão das cidades do interior paulista não é um processo separado do desenvolvimento da capital, segundo Oliveira, que atualmente conduz o projeto “Memória ferroviária (1869-1971)”, apoiado pela FAPESP por meio da modalidade Auxílio è Pesquisa – Regular.

“Muitos projetos e propostas de urbanização do interior adotam o mesmo discurso urbanizador que encontramos na capital. Há uma correlação orgânica entre o desenvolvimento dessas ideias e a sua realização material em todo o estado”, disse.

Abordando questões relacionadas ao território, ao povoamento, às políticas públicas e com um enfoque histórico sobre a formação das cidades, o livro não é voltado exclusivamente para arquitetos e historiadores, segundo o organizador.

“Embora aborde questões normalmente associadas à história e à arquitetura, o livro teve origem em um trabalho realizado de maneira multidisciplinar. Trata-se de uma fonte interessante para iniciar estudos em diversos campos”, disse Oliveira.

  • Território e cidades – Projetos e representações, 1870-1970
    Organizadores: Eduardo Romero Oliveira, Cristina Campos e Lucia Cara Gitahy
    Lançamento: 2011
    Preço: R$ 44
    Páginas: 256
    Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br

Fonte: Publicado originalmente pela Agência FAPESP

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